Prostituição. Toda casa é um puteiro.

“- Ela está pensando em virar garota de programa.
– Como? Porquê?
– Ela gosta, ué?
– Gosta de dar?
– Não, de dinheiro.”

Ouvi esse diálogo hoje, naquele tom típico das pessoas escandalizadas. Seguido de ladainhas sobre moral, bons costumes e tudo relacionado. Sabe como é? Lembra a cena do filme Malena, com a belíssima Mônica Belluci, quando ela é linchada pela população da cidadezinha por ter prestado favores sexuais para sobreviver durante o período de guerra na Itália.

Não que eu eu ache que a menina do diálogo acima esteja fazendo para sobreviver. Pelo que pude depreender, ela é bem nascida, classe média, mas pra mim o problema não é a menina ser garota de programa. Ser garota de programa não é necessariamente prostituição, é vender o corpo, sua força de trabalho, para um serviço sexual. E todo mundo, em seu trabalho, está vendendo o corpo ou o “cérebro” (os conhecimentos) como força de trabalho. O problema para mim é só a relação dela com o dinheiro. Isso é consumismo e ganância. É deixar o dinheiro ser um fim e não o que ele realmente é: um meio.

Como designer vendo meu corpo e meu cérebro. Adoro os trabalhos em que vendo o cérebro, gero idéias, confronto minhas teses com o mundo real, aperfeiçôo estas teses, detecto problemas e crio soluções, tanto no âmbito das idéias como na produção do material físico. Mas fico descontente quando sou contratado só como um braço para idéias, muitas vezes estapafúrdias, errôneas ou egocêntricas, de pessoas despreparadas. Lógico que fico contente ao ver que as contas estão pagas, mas ainda assim fico meio contrariado.

E existe um caso mais sério e profundo, que é vender qualquer habilidade, física ou intelectual minha, a algo que não acredito como certo, não concordo, causando, mesmo que por omissão, algum dolo a uma pessoa ou prejudique gravemente a sociedade. Quando eu tinha 14 anos e estava no meu 5.o emprego, me prometi que não faria nada disso. Descumprir minha promessa, vender meus escrúpulos, seria me prostituir e isso define bem o que acredito seja prostituição: vender escrúpulos, crenças, prejudicar ou explorar seus semelhantes por um punhado de dinheiro.

A moça da conversa acima não está se prostituindo ao vender seu corpo. Ela só se prostitui no momento em que vendeu sua força de trabalho pelo amor ao dinheiro. E seria a mesma coisa se ela fosse designer, publicitária, executiva, policial, senadora ou uma apresentadora de TV que explora a desgraça alheia.

E, infelizmente, o mundo está cada vez mais consumista, apegado ao dinheiro. As pessoas cada vez mais hipócritas, alienadas e gananciosas que, logo, logo, poderemos dizer que toda empresa, e toda casa, é também um puteiro.

[atualizado em 22 de Fevereiro de 2008 Às 12h27]

Vale a pena citar o comentário que fiz no A Vida Secreta:

Prostituição – o outro lado da vida secreta

Ei B., valeu pelo pingback!

E estava pensando aqui na hipocrisia a respeito da prostituição e lembrei de outra cena do filme Malena que merece reflexão. Quando a personagem começa a prestar favores, e andar pra cima e pra baixo, linda e arrumada – naquela cidadezinha cheia de mulheres largadas, inseguras ou que não se valorizam – todos os homens a assediam, com isqueiros para acender o cigarro. E as mulheres começam a ficar cada vez mais furibundas, vão lá e dão a surra na Malena:

Todos os homens desejam Malena, e todas as mulheres, no fundo desejavam ser Malena. Todas, mas se contentoram com a mediocridade em tudo nas próprias vidas.

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10 respostas em “Prostituição. Toda casa é um puteiro.

  1. Pingback: » Prostituição - o outro lado da vida secretaA VIDA SECRETA

  2. Olá Celso.

    Não sei se concordo contigo. Não quer dizer que você esteja errado, só vejo as coisas de um outro ângulo:

    Prostituição é um serviço como um outro. Alguem precisa de algo, e você oferece contra dinheiro. Se você é bom na sua atividade, faz sentido. Uma prostituta sendo paga para fazer um sexo gostoso com o cliente não é problema. Afinal, trabalho na informática e quem me paga para fazer o que faço é satisfeito com meu trabalho também.

    Infelizmente, muitos acham sujo e vergonha a prostituição porque muitos homens recorrem nela para paliar deficiências sexuais com o parceiro. Mas voltemos à informática: se você não é bom para consertar computadores, você vai ficar chateado se sua parceira chama um técnico?

    Bom, o problema é a ligação entre amor, sexo e casamento… Não tem a ver com o materialismo de um computador…

    Agora, voltando naquela menina, eu só vejo um problema: ela vai se prostituir porque ela acha isso um meio fácil de ganhar a vida (é mais fácil que estudar, sem dúvida), só que ela esquece de uma coisa: eu acabo com o tempo ficando de saco cheio com os computadores, mas ela vai acabar se entediando de sexo… e terá provavelmente problema de relacionamento mais tarde, além do fato de não encontrar facilmente um parceiro que tolere a profissão dela… como disse: a ligação amor-sexo pode ficar mais complicada…

    Mas valeu pelo assunto. E é sempre bom bater um papo inteligente a respeito.

    Abraços,
    Matt.

  3. Boa Tarde Celso,
    É a primeira vez que o visito através do blog da B.
    Não tinha visto as coisas ainda por este prisma mas concordo consigo.Estas tb são formas de prostituição e muito mais danosas que vender o próprio corpo quando se refere a tudo que possa prejudicar o próximo.
    Gostei de o visitar.Aguardo a sua visita tb se me quiser conhecer.
    http://www.anavision.blogspot.com
    Beijinhos e muito prazer

  4. Pingback: Prostituição. Só a Geni Salva. « Celso Bessa Post-its

  5. Pingback: O Mundo do Wordpress « Democracia LTDA

  6. E mais uma vez concordo com você. Vende-se o corpo como vende-se as idéias, uma força de trabalho. A questão é o tabu envolvido nisso, o (falso?) moralismo das pessoas em torno do assunto.
    Assim como eu sou uma publicitária e “exploro a desgraça alheia”, né? Coisa feia, Celso Bessa! :)

    Beijos, Guave.

  7. …transformando o país inteiro num puteiro, assim se ganha mais dinheiro…CAZUZA se foi e a piscina ficou pequena para tantos ratos.

    O maior dos crimes é ser cumplice. Grande texto para refletirmos quem anda pecando mais, uma prostituta que se assume, ou alguns de nós, os dissimulados e coniventes. A relaçao com a “grana” é realmente uma epidemia que se espalha.

  8. Pingback: Estatísticas Bizarras - Curriculum de uma prostituta « Celso Bessa Post-its

  9. Fui prostituta por longos 3 anos, digo a voces que nada tem de bom nisso apenas realmente uma falta de oportunidade de uma mãe que precisa sustentar seus filhos e não encontra trabalho em lugar nenhum da sociedade,leiam meu blog
    http://intimoeimpessoal.blogspot.com e aí com certeza voces irão entender muito mais a respeito desse submundo que eu vivi e do qual quase não consegui sair. Podem comentar a vontade, bjus a todos!

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