Os monstros e anjos invisíveis, quando aparecem.

Então hoje eu finalmente consegui comentar com alguém sobre os últimos casos de violência dignos de nota na mídia e as reações sobre o assunto.

Acho que chegamos ao fundo do poço há muito tempo e continuamos a escavar, a escavar, a escavar e a maior parte das pessoas só se deu conta disso quando o problema bateu à porta.

Agora, todo mundo tem solução, tem opinião. Alguns defendem mais rigidez ou pena de morte enquanto outros defendem educação como solução. Alguns apontam santos, outros pecadores, uns fazem o papel de anjos e outros de monstros.

Não tenho uma solução pronta para oferecer a ninguém, mas algo que tenho certeza é que precisamos voltar a ver. Ver a pessoa que está ao nosso lado, o que está no carro, o que está do outro lado da rua, na outra mesa, no outro prédio, no outro bairro ou no outro lado Marginal, ver que – como bem escreveu Manuel Bandeira – “o bicho, meu Deus, era um homem.

Ver, ENXEGAR e compreender é o ideal, mas, já é um bom começo apenas ver.

Se as pessoas que passam na Marginal Pinheiros em direção à Vila Olímpia virem a favela perto do Ceasa e da Ponte do Jaguaré já um bom começo, se as pessoas que passam de trem de Osasco para a Vila Olímpia enxergarem a favela ao lado da linha também.

Aliás, se derem sorte como eu dei ontem – de o trem estar com problemas e lento, verá a favela num travelling digno de Kurosawa e riquíssimo em detalhes: ali existem pessoas como existem nas mansões dos Jardins e nos prédios comerciais da Vila Olímpia, ali tem trabalhador e tem malandro, tem gente tentando construir uma casa decente em meio a barracos amontoados, tem criança brincando na beira do córrego e próxima de contrair Leptospirose. Verá que há uma criança andando com um olhar cansado e um caderno embaixo do braço, um adolescente com um tênis Nike original caríssimo em frente um lugar discreto (e suspeito), um garoto e sua irmã menor dando tchau para as pessoas no trem (como eu fazia na infância no interior de São Paulo), uma mulher lavando roupa para de pelo menos 5 pessoas, verá um birosca, verá gente, verá anjos e verá monstros também.

O importante é ver.

Você pode até dizer: “Eles também precisam nos enxergar, nos ver, nos entender”. E eu vou responder que concordo, ao menos em partes.

Realmente precisamos todos nos ver, enxegar e entender, mas eles já te veêm há um bom tempo: dentro do carro, na novela, nos filmes, no comercial da TV deles, nas páginas de revistas, nos anúncios que mostram uma vida de sucesso. Eles já nos viram e acenaram por um bom tempo e não fizemos o menor esforço para dizer “olá”. Fingimos que não vimos.

Como não foram vistos, agora gritam. E não dá mais para ignorar.

“Quando o monstro vem chegando e ameaçando o seu lar:
‘ parado aí no mesmo lugar. Se não, se correr, eu atiro!’
Tumulto, corra que o tumulto está formado.
Vem cá, vem ver. Vem cá, vem ver.
Que dentro do tumulto pode estar você.”

(Tumulto, O rappa. De 1995)

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5 respostas em “Os monstros e anjos invisíveis, quando aparecem.

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