O Brasil Gambiarra e o Brasil Bem Feito

Introdução – Sobre a gambiarra no Brasil

Na Wikipedia

Gambiarra é o nome dado informalmente ao procedimento necessário para a configuração de um artefato improvisado.

O Brasil é realmente um país de contrastes.
Um dos que mais me chama atenção é o fato de sabermos fazer de tudo e somos referência em muitas áreas (como na publicidade), mas muito ainda é feito na base da gambiarra ou com um padrão de qualidade aquém do ideal.

Não vou entrar nos motivos de cada um, cada empresa ou cada área, mas precisamos aprender a importância de saber fazer bem feito.

Tecnologia da Informação

Considere a área de TI, por exemplo. Temos excelentes profissionais de TI, mas são poucos que conhecem o negócio do cliente além do escopo da tecnologia. Dominam muito bem linguagens de programação, processos e práticas relacionadas à tecnologia mas são raros os que se aventuram a ler sobre assuntos diversos que ajudam a entender o produto ou serviço do ponto de vista do usuário ou do negócio do cliente. Leituras de livros e artigos sobre negócios, antropologia, fisiologia, ergonomia, design, filosofia ou qualquer coisa que ajude a pensar fora da caixa são raras.

E isso ainda leva a um efeito colateral negativo: poucos são capazes de multiplicar seu conhecimento de forma eficiente ou escrever bons textos, quiçá um livro – aliás, muitos não passariam num processo seletivo por redação. O lado positivo é que as excessões geralmente são muito boas: o livro Ergodesign e Arquitetura de Informação do Luiz Agner é um bom exemplo, entre outros.

Agropecuária

Outra área que uso sempre uso como exemplo, e que tem estado muito na minha cabeça após começar a prestar serviços para a Fruit & Food Log, é agropecuária.

Somos líderes em tecnologia agropecuária (vide o sucesso da Embrapa), mas em muitos lugares ainda há muita agropecuária destrutiva, improdutiva e usando mão-de-obra escrava – cujo termo técnico é situação análoga à escravidão – e a convivência de boas idéias e bons produtos sem uma metodologia que permita competitividade ou agilidade para brigar no mercado internacional.

O Brasil é o maior exportador de carne para mercados asiáticos e árabes por conta de um investimento maçiço em tecnologia e boas práticas em toda a cadeia de produção e logística – da criação ao produto embalado pronto para ir ao supermercado.

E a pecuária brasileira tem certas características que se tornaram numa importante vantagem competitiva e elemento de marketing: o boi verde, que é o gado bovino criado extensivamente e com alta qualidade na alimentação – significando uma carne mais saudável e de maior valor nutritivo. Apesar de ser um bom exemplo de que entrar no esquema da maioria do mundo não necessarimente significa qualidade ou uma boa opção de negócios, fica a questão sócio-ambiental: o quanto do pasto criado causou dano ao ecossistema?

E aqui, apesar de todo o investimento em qualidade, lembremos das notícias sobre o embargo à carne brasileira e o despreparo para lidar com a epidemia e limitar seus danos como prova de que ainda há muitos processos que precisam de aperfeiçoamento.

Na agricultura, acho bacana a convivência entre pequenos e grandes produtores em certas regiões e mercados, como por exemplo em PetrolinaPE, onde a produção de frutas para exportação é bem intensa: manga, uva, abacate, melão, limão, mamão, banana, et cetera.

A transformação do Vale do São Francisco em região exportadora do que os gringos chamam de exotic fruits é um ótimo exemplo de sinergia entre diferentes esferas da sociedade – poder público, iniciativa privada e indíviduos. E pelo que me contaram ainda pode ser fortalecido e aperfeiçoado.

Por outro lado, ainda há em muitos lugares uma agricultura baseada em monocultura, onde a preocupação por produtividade não vem acompanhada de cuidados e respeito ao meio-ambiente , à sociedade ao indivíduo. Locais como o interior de São Paulo que o digam – com seus bóias-frias semi-escravos em grandes propriedades e diversas famílias esperando um modelo de reforma agrária que não contemple apenas terra e se torne um meio para gerar renda e movimentar economia, e não ser apenas meio de subsistência.

Um Brasil Gambiarra ou Brasil Bem Feito

Pra mim é muito claro que precisamos reformar e revolucionar o país começando a reformar e revolucionar pequenas unidades. Do indíviduo para a família e o grupo de trabalho, da família para o bairro, do grupo de trabalho para a empresa ou orgão público, do bairro para a cidade, da empresa para o mercado, do orgão para a sociedade e assim por diante.

Se o melhor do Brasil é o brasileiro, então precisamos espalhar essa qualidade do microcosmo para o macrocosmo.

Uma reforma de baixo para cima.

Uma reforma de mentalidade, para este país deixar de ser o Brasil Gambiarra e se tornar o Brasil Bem Feito.