Estava lendo dois posts no Xiscando que me chamaram muito atenção: O protesto da Nova Schin e Jogando os publicitários pra baixo do tapete.
Ambos tocam em assuntos que me incomodam e sempre cito aqui e acredito que precisam ser melhor pensados por nossa sociedade, em especial áreas que possuem grande influência sobre outras camadas da sociedade. Não apenas na imprensa, publicidade e outros meios de comunicação, mas principalmente nestas áreas, pela importância e influência que exercem.
- O uso da palavra censura, que é muito mal usada e compreendida;
- A confusão entre o que gostamos e o que é bom;
- A confusão entre o que é correto e o que nos agrada;
- A mistura entre o que é público e o que é privado;
- A própria influência da mídia – seja imprensa, publicidade ou qualquer outro meio de comunicação.
No post sobre o comercial da Nova Schin é preciso lembrar que a ANVISA determina regras. Da mesma forma que determinam-se regras para jogos de futebol em estádios e várzeas, em simples partidas de dominó e buraco na sala de casa, em blogs (como na regra de moderação do Xiscando na imagem ao lado) ou dentro de casa para muita coisa.
Adoro beber cerveja. É um hábito e gosto meu, mas evito beber em ambientes com crianças (aliás, venho me sentindo culpado quando ando pela rua com uma lata ou longneck e topo com uma criança) e deixo bem claro para minha sobrinha, que tenho contato freqüente, que para tudo tem limites e beber não é assim tão legal – inclusive já dei vexame na frente dela, o que foi um argumento mais forte que retórica.
Já no âmbito público, os meios de comunicação – propaganda e publicidade incluso – devem ter responsabilidade e não estimularem comportamentos negativos. Principalmente em veículos como TV aberta e rádio, que são concessões públicas e não um negócio particular, apesar do poder econômico e político das grandes redes.
Creio que é necessário separar o que gostamos do que é bom ou correto. E também separar o direito e reponsabilidade individual daquilo que é público.
Adoro a cara do Abujamra como guru e a piada com o Zé Ruela, mas não sou muito chegado à Nova Schin. Isso é gosto.
(off-topic: sou mais Eisebahn, Skol, Erdinger e Bohemia)
Posso soar carola e reacionário, mas é apenas questão de equilíbrio – até mesmo por ser entusiasta de desobediência civil em muitos momentos. Sobre o assunto álcool é importante pensar no que seria correto e não o que eu gostamos: creio que a ANVISA tem que apertar ainda mais a publicidade de bebidas, assim como no caso de cigarros e outros orgãos vigiar a publicidade para crianças.
Bebidas alcoólicas e cigarros são produtos que têm efeitos negativos muito grandes, como a maioria deve saber. No caso do álcool os efeitos negativos do seu abuso normalmente atingem um número de pessoas grande além do alcoólatras. Exemplos: o número de “acidentes” de trânsito com vítimas fatais, brigas e assassinatos causados ou potencializados pelo consumo exagerado de álcool.
Gosto de beber, odeio cigarro, e acho que as pessoas devem ser livres para fazerem o que quiser, mas é preciso equilíbrio e bom senso. Num país onde a capacidade crítica é desestimulada, onde a maioria da população gasta mais tempo trabalhando para ganhar o pão do que discutindo a vida à volta ou participando ativamente da educação dos filhos e a mídia tem uma influência muito grande (ainda) na formação das pessoas, é importante ter regras contra o abuso desse poder de influência.
No post original há um comentário de um leitor, Rick, onde ele comenta “subestimam a capacidade crítica do telespectador, nos reduzindo a crianças com pirulitos.“
Concordo que reduzir a totalidade de telespectadores a estúpidos é um erro, mas não se pode ignorar ou negar hipocritamente o poder da mídia – seja na forma de imprensa, publicidade, propaganda ou correlatos. Afinal, é para influenciar comportamentos que o trabalho de profissionais de mídia é requisitado, não é? Ênfase na expressão “influenciar comportamentos”.
Falando em crianças com pirulitos, achar que a maioria do público tem uma capacidade de discernimento e crítica desenvolvida é falta de contato com a realidade. Se assim fosse, essa capacidade seria refletida em opções cívicas, sociais e poíticas eficientes e o país seria apenas maravilhas. Mas, basta olhar em volta para ver que não é bem assim.
O estado tem um gasto muito grande com os efeitos negativos de álcool e cigarro, e portanto, o assunto do indivíduo se torna público e já começa a justificar a interferência institucional. Lógico que é preciso ter cuidado e criar mecanismos para que a interferência nesses assuntos não sejam precedentes para um estado de censura e ditadura real. Um outro problema que se resolve com outras soluções.
Um comportamento esperado na democracia republicana moderna – o que muitos chamam de ditadura da maioria – é que o interesse coletivo tenha precedência sobre os outros e profissionais de mídia e comunicação precisam lidar com isso, quer gostem ou não. Para ilustrar, lembro que na polêmica sobre mídia externa e outdoores em São Paulo a maior parte da população aprova a retirada desse excesso de ruído visual. Ao menos é que depreende-se pelo retorno que tive nos posts que dediquei ao assunto, pelas enquetes publicadas em jornais e em conversas com pessoas não ligadas a área. Da mesma forma que a maioria quer ver a cidade com menos mendigos, mais limpa, com menos pixações e grafites – que pessoalmente gosto, mas já disse que se for para ter uma cidade com melhor qualidade de vida, que removam.
É importante ter em mente que são assuntos polêmicos e complexo, com diversas variáveis a serem consideradas e soluções diferentes. Mas não canso de insistir na idéia de que devemos urgentemente repensar os efeitos de nossas ações como cidadãos e profissionais e remodelar positivamente nossos comportamentos. Não para “pedir desculpas aos orgãos controladores, antes que seja tarde” como disse o Michel, do Xiscando, e sim para buscar uma sociedade equilibrada. Eu realmente acredito no poder de pequenas revoluções, cotidianas e se hoje em dia cobra-se tanto responsabilidade social de empresas, porquê não começar por retomarmos nossa responsabilidade social individual?
Michel ainda questiona:
“Somos tão irresponsáveis assim? O nosso objetivo é poluir visualmente as cidades e induzir crianças de 12 anos ao consumo de cerveja e outras bebidas alcoólicas?”
Não sei a resposta – ela é individual e cada profissional deve pensar em seus objetivos – mas talvez a literatura possa iluminar outras possibilidades. Em Sandman, Neil Gailman escreveu que “intenção e desenlance raramente são coincidientes” e centenas de anos atrás Maquiavel citava Mazzeo em O Príncipe: “não é a intenção que valida um ato, mas seu resultado“.
‘braços
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Publicado por Fabiana em 14, 04, 2007 às 20:16
Talvez o objetivo não seja induzir as crianças de 12 anos a fumar e beber, mas sim aos adolescentes e adultos entre 15 e 25.
Em que idade as pessoas começam a fumar e a beber? Na adolescência. Dificilmente um adulto de mais de trinta anos, que nunca fumou antes, inicia o vício. E o cigarro é sempre um vício! Pergunte aos fumantes que você conhece.
Influenciadas por propagandas ou não (se as propagandas não influenciassem não existiriam), as pessoas começam a fumar quando jovens e, depois de adultas, normalmente sofrendo as conseqüências de uma decisão tomada anos antes, precisam mobilizar esforços e dinheiro para parar de fumar.
As propagandas voltam-se para o público jovem porque este é o momento de tomar essa decisão insana, irresponsável e burra de começar a fumar. Quanto à bebida alcoólica, nem sempre vicia, mas, como falou o Celso, estimula comportamentos agressivos e autodestrutivos, que põem em risco as vidas de outras pessoas. Vejam-se os acidentes de carros causados por jovens depois de festas – por mais que as campanhas falem que “se dirigir, não beba”, ninguém faz isso. É um risco para todos que o álcool seja estimulado.
Quando as atitudes se tornam uma ameaça ao outros deixam de ser apenas um direito de escolha individual.
Publicado por Celso Bessa em 15, 04, 2007 às 18:36
Falou e disse:”Quando as atitudes se tornam uma ameaça ao outros deixam de ser apenas um direito de escolha individual.”
O duro é quando usam esse conceito de forma descontextualizada a fim de tiranizar ou justificar ações excusas..
‘braços
Publicado por Post-It: A imagem do publicitário não anda muito boa « Celso Bessa Post-its em 15, 05, 2007 às 19:27
[...] dizer que não concordo? Não, porquê eu já demonstrei minha posição no post Sobre Nova Schin, ANVISA, publicitários, censura, liberdades e responsabilidades. E também, minha mãe ensinou a não [...]