CQC, Sarney, Os Intocáveis, Capone e o Nazismo

Cena de Os Intocáveis (The Untouchables), de Brian de Palma, filme que romantiza um período difícil, vergonhoso e triste, da história americana:

“Quer saber como se pega Capone? Ele puxa uma faca, você puxa uma arma. Ele manda um dos seus pro hospital, você manda um dos dele pro necrotério….”

Curto e grosso:

Isso se chama escalada de conflito. Acontece freqüentemente em períodos difíceis, vergonhosos e tristes, como o momento vergonhoso pelo qual passam nossas instituições.

Ver o presidente do Senado, José Sarney, chamando a imprensa que o condena de nazistas, e ver jornalistas (ainda que com viés humorístico) do CQC associá-lo ao nazismo é, paradoxalmente, um escalada muito grande do desrespeito e conflito entre instituições e uma banalização do nazismo. E o nazismo é algo muito pior do que a Wikipédia dá a entender.

É vergonhoso e triste.

Tá na hora de começar a pensar melhor, galera.

Organizar e conquistar. Aprendendo com o PCC – Primeiro Comando da Capital

Em 2001, após a famosa rebelião do PCCPrimeiro Comando da Capital, durante um churrasco, comprei a antipatia de algumas pessoas e comprometi boas amizades ao defender a seguinte idéia:

O PCC deveria ser exemplo para a sociedade civil fora dos presídios. As chamadas pessoas “de bem” precisavam parar de clamar por mais sangue e pulso do estado e dar-se conta de que a sociedade tem que parar de perder pessoas de bem para a marginalidade e aprender com o PCC como se organizar e conquistar o que acredita ser certo.

Pouco dias depois, encontrei eco a esta idéia num show do Asian Dub Foundation SESC Belenzinho, onde a banda apresentou ao mundo a música 19 Rebellions, justamente sobre a rebelião do PCC e da necessidade da sociedade se organizar.

Segue trechos:

“A falha, a brecha, sempre existiu. Em todo o poder, em todo o Brasil.

[...]

Se a gente for ver o poder que a gente tem na não, é igual do detentos de São Paulo que mostraram a fraqueza do estado. Basta agora usar este poder aqui fora através de uma ação social radical organizada.”

E parece que agora tem mais gente concordando com isso, segundo pode-se depreender do texto do Marcelo Leite na Folha Online:

A ciência do PCC

Apesar de ter voltado a crescer no primeiro semestre de 2009, o número de homicídios vinha caindo desde 1999. Em 2000 eram 15 por dia na capital paulista; hoje são 3,5. Há muita discussão, e pouca conclusão, sobre as causas do fenômeno. (…)

Há uma (…) possibilidade (…) perturbadora: o PCC pode ser responsável por parte dessa redução.

Camila Nunes Dias constatou que o “Partido” se encontra hoje estruturado de maneira empresarial e com domínio completo sobre os presídios paulistas. Cada um deles é gerenciado pelo “piloto”, que se reporta à cúpula de 18 líderes. Fora das prisões, seus representantes são os “torres”, com jurisdição sobre cada área de código DDD do Estado de São Paulo.

Não foi só o número de homicídios que recuou, mas também o de rebeliões e assassinatos dentro das penitenciárias. A violência aberta tornou-se contraproducente para os negócios do PCC e hoje vigora mais como “ultima ratio“, medida excepcional. Para matar, todo irmão precisa de autorização da direção do Partido.

Para o bem e para o mal, o PCC racionalizou-se, mostram as ciências humanas. Se quisermos entender melhor o que está acontecendo, nós jornalistas precisamos conversar menos com policiais e políticos e mais com politólogos, sociólogos e antropólogos -além de presos e criminosos, como fez Camila Nunes Dias.

Espero que o fato de mais gente ter esta opinião signifique que o meu lamento de tempos atrás – de que uma banda estrangeira enxergou melhor nossos problemas – perca a razão de existir, e principalmente, que signifique que em breve vamos aprender a nos organizar e conquistar coisas positivas.

Coisas positivas como as referidas pelo partido ao final de seu estatuto:

Liberdade, Justiça, Paz.

Para todos.

Referências:

Artesãos do Corpo – 10 anos de palco e rua – Exposição fotográfica de Fábio Pazzini

O camarada Fábio Pazzini, um dos autores do blog Arte Simbiótica, está com exposição na Galeria Olido (veja mapa), entre os dia 05 e 14 de junho. Na exposição, fotos da Companhia Artesãos do Corpo, que o Pazzini fotografa já há uns três anos (outra relação simbiótica dele?).

Ótima dica para os fotógrafos e entusiastas da fotografia que estiverem em São Paulo nos próximos dias.  

Segue abaixo o convite da exposição.

Aproveitem!

É com muito prazer que anuncio mais uma exposição de fotos minhas. Mais uma vez é o resultado de uma parceria que já dura mais de 3 anos com a Cia. Artesãos do Corpo. Dessa vez estamos comemorando os 10 anos de existência da companhia e montamos uma exposição com fotos de cada um dos espetáculos montados por eles ao longo desses anos, e que foram fotografados por mim nesses últimos 3 anos e pouco.

É uma exposição com a cara da companhia, pois está montada no corredor de passagem que é a própria Galeria Olido. Aos olhos de todos os que vão especialmente para ver, mas também às vistas de quem só está de passagem, trazendo um pouco de arte ao movimentado centro da cidade.

Convite da Exposição Fotográfica de Fábio Pazzini - Artesão do Corpo, 10 anos de palco e rua. Na Galeria Olido, em São Paulo.

Convite da Exposição Fotográfica de Fábio Pazzini - Artesão do Corpo, 10 anos de palco e rua. Na Galeria Olido, em São Paulo.

Informação e consumidor emergente

Já disse algumas vezes e repito: tenho muito respeito pela visão do Fernand Alphen.

Mais um artigo genial dele no Webinsider:

O emergir do consumidor

Mário mora na periferia do Rio. Ele tem pouco mais de 20 anos e ganha trezentos e poucos reais com um emprego no supermercado. Mas uma coisa faz do garoto um cara diferente de seus pais, imigrantes nordestinos. Mário faz um bico vendendo DVDs piratas que ele mesmo confecciona. Dá pra tirar uns quinhentos por mês, dependendo da temporada de lançamentos.

Mário faz sucesso e não deixa barato: capricha no visual, nas roupas da moda, perfume e produtos de beleza. Sabe tudo o que pega e o que rola.

Essa é a diferença: o desejo de consumo.

Então seria a tal da nova economia uma das novidades desse novo Brasil? Sempre houve informalidade no Brasil. Todo mundo sempre fez bico. A cauda longa é velha nossa conhecida. Só não tinha nome bonito nem frequentava dez entre cada dez congressos para bonitos executivos.

O Mário tem internet faz tempo e também faz tempo que a internet para Mário não é só uma grana a mais. Mário vai nos blogs, frequenta comunidades, se liga nas novidades. Sabe mais de tendências do que a maioria dos bacanas que aplaudem a cauda longa.

Informação universalizada, democraticamente distribuída não quer dizer apenas mais instrução e mais consciência. Não quer dizer apenas mais oportunidades econômicas. Também quer dizer mais desejo.

E o desejo é o reforço positivo indispensável para emergir da sobrevivência.

Artigo completo no webinsider.

RIP Remix – Um Manifesto pelo Remix. Documentário open source sobre copyright, propriedade intelectual, crowd-sourcing e afins

Acabei de ver o trailer de um documentário que parece ser muito bacana:  RIP Remix – A Remix Manifesto, de Brett Gaylor.

Tratando sobre propriedade intelectual, colaboração, open source, crowdsourcing,  e afins, o livro tem entrevistas com diversas figuras defensoras de alternativas mais flexíveis ao copyright, como a licença GPL, Creative Commons e afins. Incluíndo aí o Lawrence Lessig e o ex-Ministro da Cultura, Gilberto Gil, conhecido por usar e estimular uso de ferramentas e posturas open source, inclusive no ministério(*). 

O projeto RIP Remix também parece ser bem colaborativo e aberto na forma que foi realizado e divulgado. Menos coletivo na realização que o livro brasileiro Para Entender a Internet (**), por exemplo, é interessante pois o diretor deu muita liberdade para pessoas do mundo todo remixar as imagens brutas que gravava, levando a uma edição diferente do que ele faria se fosse o único “dono” do projeto. 

Já a divulgação, aposta no apoio de colaboradores e expectadores, permitindo que o filme seja baixado pelo preço que o expectador escolher, e estimulando-o a fazer exibições públicas do filme. 

Abaixo o link para o site oficial (em inglês) e o trailer do documentário.

Vou baixar, assistir, e em cima do quanto eu gostar, baixo de novo e faço o meu preço. Acho que é justo não?

RIP Remix – A Remix Manifesto: www.ripremix.com

* = um bom exemplo da postura open source / colaborativa do Ministério da Cultura é o plug-in Gerenciador de Capas, para WordPress, usado pelo ministério em seu portal e disponibilizado gratuitamente nos sites Xemelê e Software Público. Eu uso em 4 sites de clientes e agradeço muito à equipe web do MinC pelo bom trabalho.

** = Recomendo enfaticamente a leitura de Para Entender a Internet, organizado pelo Juliano Spyer e com mais de 40 autores craques em internet e cibercultura.